Boa noite.
15 dezembro 2007
O amaríssimo travor de seu dulçor
Boa noite.
De onde vem a inspiração?

Ainda deitada no chão, perdida se encontrando em seus devaneios, a menina sentiu então que a inspiração era para ela um tapa: batia forte, inesperada, lhe doía o corpo, as entranhas, ansiosa. E resposta era pois escolha, ou sentava-se e esperava passar, ou explodia. No fim, ficavam as marcas, mais fortes ou mais fracas, coisa de intensidade. Ou, por vezes, não ficava nada, simplesmente.
25 outubro 2007
Denúncia
09 setembro 2007
Arranjos de piano e declarações de amor
O piano estava fechado, havia sido muito requisitado hoje, mas agora descansava. Clarice, com os dedos ainda doendo de tocar, estava sentada no banquinho almofadado encostada na madeira preta e polida que agora cobria as teclas. Estava contente (oras, muito mais que contente!) observando com os seus olhos cor de mel um moço de chapéu e calça xadrez batendo os dedos nas cordas de um violão, apertando um acorde de Sol com a outra mão e cantando. Ah, que lindo ele era! O cabelo loiro quase branco escapando delicadamente por baixo do chápeu, com todo o estilo que lhe era peculiar e os olhos negros como as teclas de meio tom acima de dó, ré, fá, sol e lá muito concentrados na partitura. Ela o olhava com uma paixão que há algum tempo se julgava incapaz de sentir. Eles estavam sozinhos e a casa era grande. Mil pensamentos a iludiam. Quando Gabriel notou a vaga atenção tão severamente destinada à sua composição, corou. Ele era um garoto muito extrovertido, mas perto dela tudo o que sabia não valia de nada, era um Universo novo. Pousou a mão nas cordas irritantes que insistiam em continuar vibrando. Pegou a lapiseira e fez uma anotação na letra da música. Apoiou o violão na parede e ficou de pé. Na frente dela. Ambos os corações dispararam, incontroláveis. Aquele segundo em que o casal se fitou durou uma década.- Nós vamos ganhar esse concurso – ele disse – e qualquer um. A nossa música é perfeita, o seu arranjo do piano ficou magnífico e a sua voz... Sua voz é... Inexplicável.
- Pessoas apaixonadas compõe muito bem, ainda mais – ela estremeceu – juntas.
Ele riu e se aproximou um pouco dela. Era tudo o que precisava ouvir, era tudo o que queria.
- Você me faz parecer uma criança, Clarice. Olha isso! – mostrou a mão, trêmula.
- Oras, meu bem, um dia a gente cresce... – Ela segurou a mão dele e levantou, ficando muito, muito perto dele. Ele fechou os olhos e respirou fundo por um segundo, o perfume dela preencheu a sua alma. Ele nunca esteve tão completo. Amava Clarice.
- Meu amor, – disse enquanto a envolvia nos braços - se ser criança é isso, eu quero ir pra Terra do Nunca com você!
Ela riu e retribuiu o abraço, ainda o olhando no fundo dos olhos.
- E eu te amo, Peter.
29 julho 2007
Simples, assim [parte 1]
13 julho 2007
Até no seu silêncio existem razões (o meu amor incondicional por Clarice Lispector)
Não sei se é exatamente o abismo do silêncio que ecoa que me traz tanta angústia. Eu sinceramente esperava que você jogasse o cabelo curto pra trás, ficasse de pé e falasse alto, e falasse muito. Você já me fez sorrir, já me fez chorar, suas palavras já me causaram emoções das mais diversas e acho que eu esperava vê-las, pelo menos em parte, em você. Eu procuro entre os seus problemas de dicção e seus sotaques as suas palavras, mas elas são poucas, vazias, curtas, frias e enigmáticas. Seus olhos querem estrangular aquele repórter (ou será que você é assim mesmo o tempo todo?) e por vezes no tom de voz dele é possível sentir um alto teor de reciprocidade. De onde vem toda essa coisa de ser contida? Suas peças de roupa não ornam, jogada naquele sofá velho e marrom de 1977. Você não sabe, não quer dizer e a sua novela tem mais de treze títulos! Eu ainda não consigo definir o que eu senti vendo você ali... As suas palavras não têm pudor, não são medidas na intensidade. Você insiste em falar ao mesmo tempo que o entrevistador e depois o encara no silêncio e o obriga a quebrar o vazio com a próxima pergunta. Logo. Você ama os seus filhos e diz que só está triste hoje por causa do cansaço, mas eu só vi o seu sorriso uma única vez em uma foto ainda. Embebeda-me o desejo de lhe abraçar bem forte, de lhe dizer como o seu mundo é completo, como a sua alma é enorme, da sua grandeza! Quantas vezes mesmo você morreu? Tolinha, não morreu nenhuma! Você é imortal, você vive nos seus livros, você vive nas pessoas, você vive em cada lágrima e em cada suspiro de seus árduos ou desleixados leitores, a sua Hora da Estrela chegou e ela não tem mais treze títulos! Eu acredito em você e pra mim você existe. Não é assim que funciona? Pra sempre. Eu queria plantar um sorriso no seu rosto lindo... Lindo! E segurar a sua mão enorme. Eu queria tentar desmanchar a sua certeza de que todo adulto é solitário. Pense duas vezes, meu bem: Quando você me traduz seu coração em uma dúzia de palavras, eu sinto que eu entendo a sua alma, eu vejo você. Talvez nós não sejamos tão diferentes: veja todas essas emoções que compartilhamos, você não está sozinha!!!
Eu desejo o impossível, sei disso. Compreendo o quanto é impossível, mas não consigo repreender o meu impulso de desejá-lo. E de tão tolo, mesquinho e impulsivo, o meu coração só consegue aumentar o meu desejo. Desejo olhar nos seus olhos, conhecer a sua intensidade com meus próprios sentidos. Ninguém melhor que você sabe que Ver é a pura loucura do corpo. E eu mais do que ninguém sei que loucura alguma me falta.Se fosse qualquer outra pessoa o meu instinto implicante poderia pensar em reclamar. Mas é você... e... eu não consigo. Você se deixa ser, se deixa dizer de uma forma tão completa que eu não sei. Nem mesmo esse seus modos contidos, que em outras ocasiões me decepcionariam, coseguiram me chatear: eu, com todo o meu coração e compreensão, vejo a sua excentricidade claramente escondida neles. E do que eu haveria de me queixar? Não é essa angústia que você me traz que faz com que eu lhe idolatre com tamanha intensidade? Não é esse seu jeito quieto que me fez assistir todos aquelas dezenas de minutos de vídeo? Eu nem gosto de entrevistas! Não é você, Clarice? Não é você? Sendo você, ai Deus: Já é mais do que eu posso pedir, já é mais do que o bastante. Tantas são as suas definições... Se compreender-lhe é uma questão de tocar ou não tocar, eu nem sequer preciso ler seus textos para compreendê-los: eles tocam o meu âmago só de ver o seu nome em baixo. Depois que eu leio é indescritível. Todos. Eu amo você com todas as letras, Clarice Lispector. Com todas as palavras, com todas as expressões. E, oras, Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós.
Então vem um esdrúxulo qualquer me perguntar pra quê fazer uma declaração de amor pra uma mulher que nunca irá ler. Não me dá vontade de responder, minha vontade é escrever mais. Daí da sua estrela, Clarice, do seu lugar, do seu céu, você verá as minhas palavras? Você sentirá ao menos parte da minha emoção? Enfim encontro uma causa justa pra minha luta: Incondicional é algo que não possui condições. E meu amor por você é incondicional. Só. Escreverei inúmeras palavras, descreverei de inúmeras maneiras. Pra saciar minha própria vontade. Minha própria loucura. Minha própria saudade.
Deixe-me dizer só mais uma vez, me faz bem e não faz mal a ninguém mais: eu amo você, Clarice.
Com todas as minhas forças.

03 julho 2007
Trechos importantes de conversas desnecessárias
- Na verdade eu já sei sim, der! E você também já sabe que eu também. E muito!
- É esse cd, só pode!
- É!!! Muito! Lembra muito ela.
- Se um dia me perguntarem quem foi a paixão da minha adolescência eu vou responder que foi a Gabi.
- AHAHAHAHAHHAAHHA.
Depois disso elas mudaram de assunto.
31 maio 2007
A sinestesia da aventura particular de Jonas [parte 2]
Todos os dias por volta das nove horas da manhã, a rua forrada por paralelepípedos acinzentados e sujos de terra ouvia o assovio de Jonas. Ele mesclava as notas desordenadamente bem e sorria, como era de costume.A combinação da rotina e da detalhada atenção do garoto era perfeita: conhecia todas as pessoas que aquele habitual acaso lhe dava oportunidade.
Enquanto pedia dois pães, por favor como sempre para a rechonchuda Dona Eulália, imaginava coisas escritas nos olhos dela. Ontem eu briguei com o padeiro e estou arrasada, Jonas. Como resposta, a reconfortava com um sorriso carinhoso. Amanhã vocês fazem as pazes, não se preocupe, ele ama a senhora muito. Ela dava um sorriso com seus dentes pequenos enquanto ele entregava as moedas e saía da padaria sem dizer palavra. Ela o achava um tanto quanto estranho, mas gostava porque sempre a deixava mais feliz. Planejava um dia perguntar o nome dele, mas faltava coragem.
Jonas andava enquanto comia os pães e ainda encontrava tempo para olhar e achar que sabia que a casa da moça das saias que esperava o ônibus era construída segundo as ordens do FengShui. Gostava do sorriso dela, mas ela nunca sorria em dias chuvosos. Tinha três gatos, ele passou perto quando achou que ela tinha dois.
Um pouco mais adiante, perto da esquina com a rua pavimentada, tinha a senhora das sombrinhas coloridas. Em seus devaneios, ela tocava piano ou não teria os dedos tão tortos. Jonas a ouvia declamando alguns acordes às vezes sozinha na rua. Todo mundo tinha medo dela. Dava aulas de piano no primário e as crianças apertavam as notas com força porque tinham muito medo dela. Ele nunca dizia nenhum oi, pois também tinha.
Exatamente no momento em que ele virava uma esquina que dava para a avenida onde estava o ponto do ônibus que o levaria para o trabalho, avistou uma moça diferente. Pensou que ela deveria estar visitando os parentes ali por perto. Degustou com curiosidade os miúdos da aparência dela: bonita... Linda! Os pensamentos se sobrepunham sem prévias. O sexto sentido sinestésico de Jonas estava aguçado, delirando por saber mais. Ela caminhava em passos lentos, despreocupados. Ele, como queria olhar mais, diminuiu a velocidade também. As cores das roupas dela, o gingado daquele dia de clima estranho, a música que começou a tocar na cabeça dele. Via claramente a alma dela, mas não conseguia decifrá-la. Ele não arriscava dizer quantos gatos tinha e nem sequer qual era o quadro da parede da sala de estar da casa dela. Quando caiu em si, a moça já havia notado o interesse no olhar dele. Ela sorria e não só sorria, sorria para ele. Era um sorriso dado, assim: lindo, aberto escancarado com todos os dentes. Era delicioso para ele vê-la sorrindo, mas confuso e diferente demais.
Foi só um simples "olá!" e ele nem sabia o que fazer. Procurou os bolsos, como se tivesse acabado de notar que possuía mãos. E ainda procurando reação, fingiu que não ouviu nem viu, olhou para os lados, para cima, engoliu seco. Deus, e agora? Entrou no ônibus correndo. Ônibus vazio, ônibus errado. Não faz mal. Sentou-se e os olhos arregalados miravam para qualquer coisa sem conseguir ver nada de verdade. Olhava além, como se olhasse para ela ainda. Sentia o coração batendo no braço, no pescoço, na perna e batendo, batendo forte. Ele não estava preparado para tais radicais mudanças.
De repente piscou, balançou a cabeça e se sentiu completo. Sentiu o olá da menina preenchendo algo que ele nem sequer tinha se dado conta que estava vazio. Pensou com convicção que só agora conhecia uma pessoa de verdade, conhecia mesmo. Pensou se poderia vê-la no dia seguinte, mas estremeceu só de pensar: Acho que não preciso conhecê-la mais do que isso. Já estou completo.

