22 abril 2009

Não Maria, mas Rita

Tenho uma necessidade por pessoas. Às vezes tento escrever histórias, inventar personagens. Mas não passam as pessoas. Elas estão e permanecem todas à minha volta, esperando para serem amadas, para serem odiadas, pra eu não gostar delas ou gostar delas muito. Elas estão lá pro mundo, dando sua cara à tapa, como eu, como todos nós, simplesmente levando a vida, de jeitos diferentes, com todas as variáveis e incógnitas possíveis.

O fato é que o comando me atormenta. Os meus personagens são muito entregues à minha vã vontade momentânea. Eu gosto das coisas que não posso controlar. E lá estava ela, à primeira vista tão comum, naquele palco, reclamando, coçando a cara com o microfone, com o cabelo um pouco despenteado. Tão cheia de peripécias pra contar, de infância, de histórias. Não segue o meu esteriótipo de amizades platônicas, mas ela é incontrolável. Ela é tão assim, sabe-se lá por quanto tempo, sempre foi, tão ela, que chega a ser um pouco deslocado, antiquado e imprevisível. Imprevisível por se encaixar tão perfeitamente entre diversos fatores improváveis. Imprevisível por se fazer importante, de um jeito tão ímpar. Sem saber, sem precisar ser nada além do que lhe cabe.

São 150 alunos, mas ela está lá, todas as segundas e quintas. Eu me enfeitarei com um sorriso bobo todas as segundas e quintas pra dar risada das espantadas de sono dela. As pessoas são tão únicas que eu não posso evitar. Elas estão lá, sempre. E o meu platonismo nunca falha.

05 março 2009

Seu samba vai tocar no infinito

Shows são uma ilusão. Nós vamos alegremente até o local, pegamos fila, pagamos caríssimo no ingresso, brigamos com pessoas chatas, pisoteamos os pés dos outros, perdemos o celular, somos roubados, mas no final nada disso importa, nós estamos lá, cara a cara com a pessoa que admiramos, compartilhando olhares, acreditando na imensa e idiota ilusão de que estamos, realmente, compartilhando olhares.

Mas então ela veio. Ela apareceu naquele palco pra quebrar todas as certezas que eu tive. Foram duas vezes, esperanças duplamente reforçadas e SIM, eu realmente acredito que ela se lembrou de nós. Porque, oras, existem mil fãs da Maria Rita. Existem mil fãs de samba, existem mil fãs de todas as coisas. Mas eu sei que, naquele dia, nós nos destacamos. Pra ela, inclusive. Nós éramos a nova idade, reunida com toda a mais pura unidade, bem ali, na frente dela e gritando. E chorando. E dizendo com os olhos: nós gostaríamos de ter um símbolo pra fazer com as mãos e dizer o seu samba, mas estamos aqui, com a maior adolescência possível dizendo com as mãos erguidas no ar: Yeah, girl, you ROCK. You rock com o seu samba de bossa e não de grito, you rock com as suas dancinhas, com as suas gracinhas e com as suas pernas torneadas e roupas de lantejoula. E, sim, eu realmente acredito que ela pegou essa mensagem no ar, dentro da magia que se forma naquele pequeno universo que celebra tudo o que é bonito que é o show da Maria Rita.

Quão ridículo é dar corda a essas esperanças? Quão tosco e sem noção é isso? Quanta vontade seria necessária pra fazer com que quatro pessoas vissem e acreditassem nessa mesma coisa? Não é muito possível que tenhamos imaginado. Não consigo acreditar nessa possibilidade. Ela olhou pra nós, ela apontou pra nós, ela imitou o nosso gesto idiota, ela riu quando nos viu e ela disse: Pra você também. Ela disse pra nós, eu tenho a mais absoluta certeza disso. E que me rotulem de louca, se quiserem, que ninguém acredite em nós, que me olhem com cara de desprezo enquanto eu conto, eu não vou me importar. Porque essa semente de esperança é minha e eu sinto como se eu pudesse mudar o mundo. Uma semente dividida em cinco. Que me faz ter forças pra seguir essa trajetória e acreditar nos meus sonhos mais incríveis.

Desde ontem, nasceu em mim uma expectativa de um futuro melhor, uma vontade, uma verdade, um desejo de ser algo notável, nasceu em mim algo bom e novo e tudo isso tem o seu nome assinado em baixo, Maria Rita. Os seus nós da garganta, os seus choros, eu acredito na verdade de cada uma das coisas que você faz, com o seu coração enorme. Eu sinto na sua voz, o quanto tudo é verdadeiro. Eu acredito na sua força e NINGUÉM poderia ter representado melhor a comemoração do dia da mulher do que você.

É, Maria Rita, a novidade que anda por aqui é toda sua ♡

03 março 2009

The end has no end

Na vida real, as histórias nunca terminam. Não existem fins, tampouco pontos finais. Nós simplesmente seguimos em frente, depositando todas as nossas raras esperanças em um santo que até mesmo os ateus são obrigados a acreditar - o tempo. E, com mais facilidade do que nós, o tempo segue, mando, frio, lento. Mas, no fundo, o tempo é como aquelas borrachas milagrosas vermelhinhas que apagam caneta - realmente acreditamos que pode funcionar e a nossa profunda fé faz com que a usemos até arrancar do papel as fibras coradas de tinta de caneta e todas as outras em volta, junto. Não é realmente como apagar, o papel está, então, incuravelmente ferido. Ao longo da vida, podemos tentar arrancar à força as memórias, podemos tentar nos dilacerar para remover o que está errado dentro de nós, mas existem marcas que não podem ser apagadas. Mesmo que tenhamos a grande sorte de esquecer os motivos e deixar de lado os sofrimentos, as marcas, elas ainda estarão lá.

01 março 2009

Desatando nós da garganta

Como para ajustar certas expectativas, eu resolvo mudar de opinião sempre. Mas nunca encontro o ponto certo, a sintonia, não consigo equalizar a rádio tocará as músicas que eu pretendo ouvir. Meus valores estão todos distorcidos, e para não precisar explicar o que sinto, mais por não saber, simplesmente não toco no assunto. Ele fica lá - parado, intacto, intocável. Dessa forma, encerra-se tudo por debaixo da minha pele, onde eu guardo pra mim o que ninguém pode encontrar.

18 fevereiro 2009

O outro lado

No meio de sua caminhada, Natália parou os dois pés paralelamente ao meio fio para observar calmamente o trânsito com o objetivo de atravessar a rua, sem ser atropelada. Mas, por algum motivo desconhecido, em um instante todos os objetivos fugiram de sua mente. Ela olhou ao redor, procurando-os, mas se perderam muito rapidamente por entre os automóveis, por debaixo dos pés dos pedestres apressados, por entre os corpos apertados do transporte público do meio dia. Sem reação, encarou a rua com coragem. Observou atentamente detalhes que a pressa nunca a deixava ver. As moedas pesaram no bolso, um peso incômodo e repentino, como se tivessem acabado de ser colocadas ali. Os ombros pesaram a postura incorreta que ela insistia em ter, então ela se alinhou e segurou o fichário com mais firmeza. Observou os carros e pensou em quanto eles nada significavam pra ela, e sentiu um carinho maior pelo seu par de tênis velho a partir daquele instante. Pequenos detalhes de uma rotina que não poderia ter nenhum outro adjetivo além de rotineira mudaram, naquele mísero instante. Ela sentiu melhor os pés e atravessou a rua, sem olhar pra trás.

13 fevereiro 2009

O que é que a baiana tem?

Eu certamente escreveria uma poesia se fosse do meu feitio. Afinal, tais fatos mereciam ser narrados em sílabas fonéticas perfeitas, em palavras contadas, em frases pensadas. Mas, sendo eu, a representante mais árdua da hipérbole, não poderia conter os advérbios de intensidade que eu insisto em espalhar exageradamente ao longo dos períodos, só pra deixá-los mais longos e com pose de intelectuais.

Como uma belíssima contradição às minhas experiências e, ao mesmo tempo, como uma resposta tão condizente às minhas expectativas que eu nem chegava a esperar tanto, como uma resposta a tudo isso, você me trouxe as cores. Justo pra mim, que sou tão intensamente apaixonada por cores. É que cores pode ter um sentido muito amplo, mas no seu caso, foram cores mesmo. Cores que estavam tristes, aprisionadas dentro de uma caixa de lápis de cor e você as fez voar em espaçonaves e as concentrou, em imensas doses de alegria pura, bruta, completa.



Apesar de eu prestar atenção em cada detalhe do que você me diz e já saber diversas coisas sobre você, parece que ainda vai levar um tempo pra eu saber do que é que se faz essa sua alegria, do que é que você é feita, de onde é que surgem os seus jardins de pirulito. E, talvez, eu realmente nunca saiba. Mas é que tudo o que você é são tantas coisas que me parece grande demais pra ser compreendido, e talvez seja bom assim, sem saber.

Ter você no meu MSN significou novos motivos pra dar risada, mas ter você na minha vida significou ter um motivo de verdade pra sorrir diariamente. E, aconteça o que acontecer daqui pra frente, nenhum outro começo poderia ter sido melhor do que este.

E o que mais me impressiona é que pode parecer tão pouco para o mundo, mas pode parecer incrivelmente enorme pra mim. Incrivelmente enorme...

E mais uma vez o assunto de hoje: Ai, como a Fer é foda ♥

06 fevereiro 2009

A verdade sobre a magia [parte 10]

Quando Liz chegou em casa, naquele dia, desabou no sofá bege da sala de tevê. Tinha o olhar fixo, perdido e distante. Não ouviu música, não ligou o computador, não assistiu seu programa favorito. Entre os dedos, amassado, um pouco apagado e molhado com o suor da mão que o segurara com tanto ardor o dia todo, estava o melhor guardanapo de papel que ela recebera na vida. Ela o abriu e o alisou em cima da mesinha de centro. Assim o deixou, ali. Afundou as costas no encosto do sofá e o observou atentamente. Pensou em quantos guardanapos exatamente como aquele ela havia usado na cafeteria durante a vida toda e jogado todos fora depois, sem qualquer ressentimento. Eram, afinal, apenas guardanapos. Mas ela olhava pra aquele, em especial, como se fosse um diamante recém lapidado. Era a coisa mais importante que havia naquela sala, naquele momento.

O que ela sentia era um sentimento descompassado e praticamente incompreensível, que de tão insano, parecia perfeito. E, naquele momento, ela descobriu. Olhando para aquelas fibras toscas e rabiscadas de azul, ela soube: A magia e o ser humano são duas coisas que estão intimamente ligadas. Com um toque, um olhar, um gesto, o homem pode transformar completamente as coisas. Aquilo era um guardanapo, sim, mas a caneta azul de Jonas o transformou numa coisa maravilhosa, que de tão boa, ela nem podia descrever.

Ela riu de leve, colocou o papel no fundo do guarda-roupas, deitou-se e não pensou em nenhuma outra coisa até adormecer.

Sinalizar o estar de cada coisa [parte 9]

- De onde foi que você copiou isso?

Encarou-a. Engasgou com a própria saliva, mas não tossiu. Tapou a respiração - não sabia, não sabia. Estava nervoso, abriu a boca para ver se vinha algo à cabeça para falar, mas no exato momento em que o cérebro enviou uma mensagem para as cordas vocais tentarem vibrar, ela desabou na cadeira à frente dele, dizendo:

- Tá, você ganhou, é lindo.

Ficou confuso. Ainda mais do que já estava. Abriu a boca de novo, mas não pensou em nada pra dizer. Então resolveu improvisar. Tamanho desastre, pois ele mal sabia fazer as coisas sem improviso.

- Eu gosto do jeito que você prende o seu cabelo, porque ele não parece muito arrumado, mas ao mesmo tempo, se você quisesse que ele ficasse exatamente assim, levaria horas. Ele nunca é igual, não é?

Ela olhou nos olhos dele com uma expressão que não poderia significar nada além de dúvida. Observou o homem que não passava de um pequeno e inocente menino mordendo os lábios, desviando o olhar, disfarçando (coisa que, diga-se de passagem, ele não sabia fazer nada bem). Então, ela desprendeu a atenção daqueles pequenos movimentos estranhos e quase nem se lembrava mais da pergunta que ele tinha feito há um segundo. Respondeu, meio sem certeza:

- Não sei.

Seguiu-se um silêncio constrangedor, como sempre é quando as pessoas não se conhecem e não têm o que dizer uma diante da outra. Ela sentiu as faces arderem, estava tão vermelha que combinava com o tom de seus cabelos. Ela era especialista em combinar as coisas sem intenção. Ele estava em choque ainda. Não só com a forma incoerente que o enredo se desenrolava sem que ele pudesse prever, mas também com a estranheza das cores que compunham aquela cena, e, ainda por cima, combinavam. Combinavam. E não havia nada que ele pudesse fazer pra mudar isso. As cores combinavam simplesmente pelo fato de que estavam lá dispostas num momento perfeito. Descritas com sua intensidade peculiar, sem querer ser mais ou menos do que lhes cabia. Eram apenas cores, e, ainda assim, eram cores perfeitas. Traziam em seus tons quase secretos todo o calor que aquele dia proporcionava. E, se algum dia, tornasse a vê-las dispostas assim, chamaria de deja-vu e seria um dos bons, daqueles que fazem aparecer um sorriso, em que já não se lembra o porquê de sorrir, mas se desconhece qualquer motivo pra não fazê-lo.

Jonas concluiu que haveriam passado horas, dias, anos ou milênios depois de todos aqueles pensamentos que estavam passando pela cabeça, mas antes que pudesse tomar uma providência, ouviu o ruído do silêncio espatifando-se com a pergunta:

- Foi você mesmo quem escreveu? Mesmo?

Demorou a assimilar a frase, seus ouvidos não eram muito acostumados com vozes femininas.

- Sim, fui eu... Mas... eu não sei. Você me faz sentir como se eu não soubesse de nada mais. Eu não consigo explicar... Eu só preciso... Saber. Saber o que é isso. Saber quem é você... De onde você veio... E qual é a sua cor preferida... Eu preciso... Saber. Só... Pra eu me encontrar de novo.

Ela riu. Aquele sorriso largo e difícil de superar que apertava o coração do pequeno grande Jonas. Apesar disso, sentiu-se livre - se ela sorriu, era um sinal de que não era de todo mal. Estranhou as novas sensações que sentia, mas as aceitou de peito aberto, pronto a receber toda a sorte de informações que lhe fossem cedidas. Estava pronto agora, havia crescido tanto...

- Verde.


A confusão na cabeça dele se esvaiu em um segundo. Surgiu uma linha tênue entre a total clareza e o desespero. Era uma linha verde. Pensou em milhões de coisas verdes. E talvez tudo o que ele pensou transpareceu um pouco através de sua expressão esperançosa e incomum porque ela, agora, o observava com outro olhar, com outra intensidade, com outro sorriso. Com um sorriso, pelo menos.

- Enfim, comecemos pelo começo, agora que já estamos quase no meio - ela riu, já ele, demorou ainda uns três dias pra entender o que ela quis dizer com esta frase, mas depois sozinho em casa, ele riu também - Qual é o seu nome, Senhor J?