25 novembro 2009

Quanto é o ingresso?

Eu a observava de longe, num canto escuro, enquanto ela era pura luz. Enfeitava-se nos finos raios de Sol que irradiava e brincava com o corpo numa frenética insistência de me fazer não resistir sem saber. Eu confesso - nunca fui um bom homem. Eu não acredito na transformação. Tudo o que sou, ontem eu guardava, mas aqui estava, já bem preso nas entranhas de mim.

Ia soltando meus podres ares entre copos de cerveja e as fumaças de cigarros alheios. Quis fumá-los todos e me embriagar com as mais ardidas bebibas que me queimassem a goela. Que me fizessem sentir fisicamente o que eu já estava sentindo, pra ver se, quem sabe, não passava. Mas não passava: eu nunca fui um bom homem. Meus olhos a seguiam de canto em canto, sem perdê-la um instante sequer, a guardá-la na retina, no cérebro, n'alma, a tatuá-la na memória. E me estremecia o corpo - mau homem, má insistência, má desistência. Escolhas euforicamente enganandas, vesgas, embaçadas. O nó da garganta espreitava boca afora, e a ânsia do estômago tinha ímpetos de fazer o mesmo. Era um sentimento puramente físico que se apossava de mim. Os goles se tornavam sem gosto e meus olhos ardiam. Estaria com febre, talvez? Sentia arder a nuca, o pescoço, o corpo todo.

Mas estava decidido - eu nunca fui um bom homem. Um bom homem não sentiria aquilo, não desejaria com tanto calor. Um bom homem elogiaria a beleza dos olhos da moça, enquanto eu me afogava em outras belezas muito menos dignas. O álcool barato já me doía a barriga e a cabeça, mas os olhos nem piscavam. Era um espetáculo: as luzes coloridas voavam pra todos os lados pra acompanhá-la. Minhas mãos formigavam. Era um espetáculo para um homem ruim. Pra um homem ruim se desintegrar em física paixão, pra eu me afogar, me desfazer, estremecer.

Ela dançava, reluzia seus encantos pro mundo sem vergonha, enquanto o mundo não sentia vergonha alguma de recebê-la, também. Ela falava, cantava, dizia, dançava e andava. De um lado pro outro, num ritmo inconstante e incoerente.

Até que tudo rompeu-se, deixando-me inquieto e deslocado. A cena acabou. Meu corpo ficou numa inércia desesperada, na esperança da volta. Os olhos perderam o foco, fiquei distante, perdi a concentração. Onde estaria? Onde estava? Onde estará? Não haviam mais olhos, nem corpo e o desejo se esfregava nas mãos, tão perdido quanto eu, sem saber pra onde ir. Tão forte, tão destinado e sem rumo.

Agora só me restava a certeza de que eu não era um bom homem. No meu palco, nada mais havia. Um mau homem, sem motivo, sem reação. Eu era um mau homem sem com que ser mau. Mas agora eu já sabia o que eu era e não tinha mais volta. Eu descobri o que havia numa parte desconhecida de mim. Uma vez descoberta, agora estava a mostra. Levantei-me da poltrona e saí, sem notar que as luzes ainda estavam acesas. Pra mim, elas já não estavam.

24 novembro 2009

Dear J,

Hoje o clima não está pra desenhos. Passei a tarde enfurnada no quartinho de costura e já usei todos os retalhos que você comprou pra mim nas férias. Quero mais estampas floridas e ainda não aprendi onde encontrar aquelas bolinhas coloridas sem você. Eu lhe fiz um estojo pra guardar suas canetas pretas. É que elas são tão insaturadas, J, precisam de alguma cor pra sorrir um pouco. Você paga se eu enviar pelo correio pra você ou prefere que eu lhe entregue quando você voltar?

Acabaram os botões amarelos, talvez porque eu tenha um apreço incrível em usá-los em todas as peças que costuro. E estão sobrando os verdes, não comprarei novos (por enquanto). Você prefere os amarelos? Estava pensando em lhe fazer um desenho. Pensei em pintar um quadro, mas quis escolher antes uma cor e não sei. Eu nunca sei. Você escolhia, quando estava aqui.

Eu manchei minha saia listrada ontem - não fique bravo comigo. Acabei lavando a bendita junto com os lençóis. Não deu certo. Mas tou pensando em transformá-la em uma bolsa, não sei ainda.

Passei a noite pensando nas flores que você me enviou. Você exagerou nas cores delas pela falta do que escrever no cartão? Ainda disserto comigo mesma sobre a distância estar dissipando ou aumentando o nosso caso. Eu sinto sua falta ao meu lado na minha cama quando acordo, mais do que quando me deito. Acho que nossa paixão acabou, J. Agora ficou esse amor frouxo das primeiras horas de Sol. Mas ainda tenho aqueles pensamentos temáticos sobre os quais conversamos outro dia ao telefone.

Quando você voltar, traga o calor da euforia com você, por favor.
Perdoarei que você se esqueça de todos os outros pedidos.
Menos este.

F.

17 novembro 2009

Sieg Füher

Eu lhe quis de volta pra encher meu ego, pra me dizer coisas bonitinhas. Eu me aproveitei de você, do seu corpo, do seu amor. Testei seu sexo, sua força, seu lirismo e sua voz. Eu lhe deixei rouca, frouxa, morta e murcha, com os cabelos revoltos. Sem roupas as pessoas perdem o orgulho. Eu lhe observei com olhos duros e disfarcei com um sorriso bobo. Fiz umas piadas e desfiz o seu medo. Eu lhe fiz desperdiçar dias, meses e palavras inúmeras, depois lhe coloquei de volta na minha caixinha e guardei com carinho dentro do guarda-roupa. Eu enxuguei as suas lágrimas com as costas das mãos e lhe deixei de molho. Pecado, né? Tão bonitinho esse seu corpo, seu estilo ingênuo de gente que finge que sabe o que quer... Suas cartas quase que tiram uns sentimentos de mim. É pecado lhe deixar de lado, mas não tem muita graça, o seu barato é pouco e o nervosismo que você sente quando me vê me deixa um pouco enjoada. Você não é loucura, você não é paixão, você é meio água com açúcar. Pro meu jogo de amores, você ainda é café com leite. Pingado. Em copo de cerveja de bar, daqueles que não valem nada. Falta muito amor próprio, eu não quero o seu romancezinho de novela das seis. Sem contar que você sempre volta, então tanto faz. Eu posso ter e não ter, só estalando os dedos. Você nem sabe estalar os dedos. Isso faz você perder toda a graça, sabia? Você é tão judiadinha e a minha fúria por falta de amor fica louca pra lhe passar uma rasteira com gostinho de Holocausto de vez em quando, só por diversão. Vez em sempre, na verdade. Eu não faço por mal, você é que vem, você é que escolhe me encher de bajulações desnecessárias e eu, sinceramente, acho uma graçinha. É engraçado: esse tanto de gente super apaixonado por você, mas cê curte sofrer, né? HAHAHA Tô ligado. Mas tudo bem, pra sofrer é comigo mesmo. Ah, sei lá, meu, espera mais um pouco ai... Quem sabe um dia eu não decido pegar você de novo?

25 outubro 2009

And nothing else compares

A música é um passo pra completa insanidade. Quando ela invade os nossos ouvidos, o sentimento se une ao físico e nós nos tornamos seres entregues, completamente preenchidos por acordes que nem sequer sabemos quais são. Nos cinco minutos enquanto vibram nossos tímpanos, são os cinco minutos mais perfeitos de nossas vidas, durante os quais nada nos falta. Nossos sentidos se entregam a falta de razão, nossos atos os seguem, inertes. Tornamo-nos uma massa compacta, complexa, desconhecida, concentrada. A música nos faz ser uma coisa apenas, dentro da qual cabe tudo o que se existe pra ser. A música expõe nossos corpos ao delírio. Ela faz de mim o que eu sou, e faz de mim o que ela bem quer. Meus cinco minutos de completa inércia a você, querida, vão se prolongando e tornando-se horas, dias, meses, vidas. De minutos em minutos em que o meu corpo é seu, meus atos e meu pensamento, completamente absortos em suas entranhas, entrando aos poucos pelas minhas.

07 outubro 2009

It's a mess but it's workin'

Em um belo dia de calor, assisti O Fabuloso Destino de Amelie Poulain e fiz uma descoberta. Uma grande mudança na minha vida, os sorrisos brotaram com a facilidade de um matinho frouxo que se arruma em qualquer canto de calçada. Por muito tempo, essa descoberta me bastou. Meus dias foram completos por ela, em todas as lacunas, lá estava.

Mas quanta coisa há no mundo? Entre todas as coisas que existem, quantas? E de um modo franco, o mundo foi abrindo seus ramificados caminhos a minha frente, tudo eu desconhecia. Minhas fantasias coloridas e perfeitas foram desabando, me ferindo internamente com seus tijolos pesados. A descontrução me desconcertou. Encontrei-me novamente, em pedaços, desconexa. A fé em minha antiga descoberta brilhava quase sem luz e ia se apagando gradativamente. Ela era o que antes me unia: a cola que juntava o que havia por dentro com o exterior de mim.

Antes de me perder completamente, porém, por sorte, conheci Leónie. Entre uma página amarelada e outra, o naturalismo me abriu a mente para o ideal Amelie Poulain mesmo entre as relações mais animalescas. No desejo natural, no instinto, na realidade dura e complexa, existe um ideal de felicidade também. Foi tão simples: minha descoberta estava reestruturada. Enterrada no cimento das realidades concretas também é possível encontrar quase as mesmas deveras felicidades de outrora.

É aí que entra a minha visão da semelhança incrível entre Leónie e Amelie - ambas, através dos séculos libertando as pessoas de suas vidas medíocres e trazendo a felicidade, seja como for. Quando eu crescer, aprenderei a ser como elas. Escrevam o que digo!

12 setembro 2009

Por que os gatos?

I. Eu sou cinqüenta por cento você. Posso ver na sua foto as minhas olheiras e a minha boca. Se eu lhe conhecesse, talvez soubesse o quanto mais. Você é a lágrima que eu segurei e a lembrancinha comemorativa tão importante que eu não tive pra quem entregar. Você é o meu final de semana inútil e entediante repetido anualmente e os anúncios da TV pelos quais eu alimentei um ódio reprimido. Só agora eu vejo. Você é o meu não ter pra onde fugir - você não me causa nada, mas agrava o meu desespero, quando ele me vem. Ainda assim, metade do que há em mim veio de você. Mas qual metade? Você é o músculo que me falta, a força que eu não tenho. Você é a rejeição em mim – eu me privo de sentir a sua ausência tanto quanto você pôde me privar da sua presença. Você é o meu refinado gosto por tudo o que é ruim, você é o meu pecado, simplesmente por não caber a você nenhum dos pronomes possessivos na primeira pessoa que eu insisto em colocar mesmo assim. E apesar de tudo isso, a metade há ainda. Eu lhe perdôo por ser fraco, por ser homem, por ser desonesto, medroso e um tanto quanto desleal. Eu lhe perdôo pela sua imperfeição e por toda a imperfeição que você me causou – genética e emocionalmente. Eu lhe perdôo pela falta de vontade, pela falta de estudo, pela falta de caráter, pela falta de determinação. Eu lhe perdôo porque eu sou fruto da sua falta de verdade, da sua irresponsabilidade e da sua impureza. E porque eu sinto que no fundo de tudo de ruim que existe em mim, há uma bondade pura e inocente. Essa deve ser a mesma maldade que existe em você porque tenho certeza que veio dos seus cinqüenta por cento. Sentir que há algo que nos une é ao mesmo tempo ridículo e esplêndido. Eu não sei quais foram as suas experiências na vida e você não sabe qual foi a primeira palavra que eu falei, mas você sabe da minha existência e eu sinto a sua. Em que você acredita? Qual a sua palavra preferida? Você gosta de música? Qual a expressão que faz seu rosto quando você fica bravo? Você fica bravo com freqüência? Você grita? Você dá bons conselhos? Você mudou? Você ainda fuma maconha? Você prefere praia ou piscina? Quem é você? Eu sei que eu não lhe amo e nem você a mim, mas eu tenho a esperança que ambos possamos nos orgulhar um do outro em breve. Orgulho do futuro, pois do passado só me resta uma vaga lembrança do que você não foi e do que eu nunca deixei a sua ausência ser.

II. Você conquistou o seu lugar em mim. O seu tamanho esconde seu coração mole e a sua força esconde as suas fraquezas. Você se tornou algo pra mim que eu espero que um dia eu saiba lhe dizer o quanto. Você não briga, não grita, não bate e eu tenho vontade de lhe obedecer. Quando você discursa, as palavras não costumam se adaptar a você, elas se confundem e as suas metáforas são péssimas, mas a nossa conversa foi a coisa mais importante que me aconteceu nos últimos tempos – foi a esperança. Você acredita em mim, eu sei e não quero lhe decepcionar. Você é incrível. Você me mima muito e ver a sua bronca disfarçada de conversa séria foi um choque. Ouvir você falando da sua vida, dos seus sonhos não realizados, das suas esperanças e das suas suadas conquistas foi um aperto no meu coração. Eu quero lhe dar essa alegria e todas as outras que eu puder. Eu quero que você possa continuar dizendo sobre mim pros seus parentes com o tom orgulhoso que você sempre usou. Desculpe se eu não pude conter o choro, se eu fraquejo nas minhas decisões e se eu não liguei pra lhe dizer parabéns no último dia dos pais. Pra mim, você é um grande homem. Desculpe-me por nunca ter lhe dito isso.

III. Eu estou feliz de estar de volta, de ter lhe dado a minha confiança outra vez. Eu estou orgulhosa de você, das suas mudanças, das suas escolhas, das suas novas amizades. O tempo que eu passei longe foi o bastante pra você aprender tanto e eu sei que eu perdi essa parte da sua vida, mas eu estou imensamente feliz por ter conseguido encontrar o caminho novamente antes que fosse tarde demais. Obrigada por ter mantido as portas abertas, por ter me aceitado de novo. Obrigada por esconder meus pecados, por rir das minhas merdas e por não ficar brava quando eu durmo muito cedo no meio das nossas conversas de madrugada. Obrigada pelas mensagens cheias de gírias que você me manda e obrigada por me admirar, mesmo sabendo que eu não sou tão perfeita assim quanto os outros acreditam. A sua admiração é de um valor inestimável pra mim, meu bem, porque você sabe a verdade. Eu amo você e eu espero que você entenda que, mesmo longe, eu sempre lhe amei. Passe o tempo que for, quando você precisar, eu estarei aqui sempre - nós somos Soares, somos mulheres e somos (muito) iguais.

IV. Eu não me importo com quantas vezes você repete as histórias. Eu darei risada todas as vezes das mesmas piadas, mesmo que elas não tenham graça desde a primeira. E quando nós segurarmos as mãos pra atravessar a rua, eu não permitirei que você veja que o tempo passou tanto e deixarei você pensar que ainda é você que me conduz, mesmo que hoje seja o contrário. Eu amo você na sua braveza, nas suas graças, nos seus tabus e na sua implicância. Obrigada por ser o alicerce que deixou essa família em pé por tantos anos. Quando você nos deixar, o mundo não será mais o mesmo, mas nós continuaremos caminhando porque você nos traçou esse destino com a sua determinação. Obrigada, mais uma vez, por todos nós, que somos, antes de tudo, fruto do que você sonhou.

V. Eu nem notei e você cresceu. Os pêlos engrossam e as espinhas marcam o mesmo rosto de menino que eu cresci olhando. O brilho nos seus olhos é o de sempre, mas hoje esconde tudo de você que eu não conheço mais. A gente se confessa às vezes, às vezes falando, às vezes não, e é uma confissão complexa, você sabe. Eu não sei me encontrar mais em você com a facilidade de antes. Você era o único homem da minha vida, o mais próximo, o mais (quase) homem. E agora eu me perdi de você um pouco. O que isso significa, eu já não sei explicar. A gente tomava banho junto naquele banheiro e jogava futebol no box com as bolinhas que a gente comprava no Extra, lembra? Era a nossa alegria. Você ficava do meu lado em todas as brigas idiotas e a recíproca era verdadeira. Você ouvia os meus conselhos infantis pras suas brigas infantis, o que até que era apropriado. Hoje, quando eu entro na sala, você tá jogado no sofá, com as olheiras de quem dormiu a tarde toda, você esconde a sua cueca preta de mim. Existe um conteúdo nela, uma vergonha, uma discrição, você esconde a parte nova que cresceu em você e eu finjo não ver, também. Nós seguimos nos garantindo que nada mudou, apesar disso. Os nossos hormônios contradizem a nossa certeza, mas nós os silenciamos, com a mais dura repressão de nossos antigos sentimentos que mantemos intactos. O meu amor por você é o mesmo, menino, mas tente entender um pouco sobre a minha deficiência em amar o homem que você está se tornando – eu não tenho prática alguma no assunto. Talvez, quem sabe, você me ensine. Talvez eu precise de você pra me ensinar isso, sabia?

VI. Eu desejo a sua felicidade. Eu desejo a sua felicidade tanto que chega a ser até um egoísmo, como se a sua felicidade fosse me pertencer, me libertar, me fazer encontrar o caminho. Eu não quero ser a sua felicidade, nem sequer a sua tristeza. Tento me manter numa distância apropriada pra não ser o bastante pra representar nenhuma dessas duas coisas: não posso estar muito perto, tampouco posso estar tão longe. Eu não sou o bastante pra ser tanto pra alguém. Eu estou pedindo ajuda de qualquer lado que me ofereça, eu preciso de ajuda. Não só pra minha vida, mas pra lidar com você. Com a minha vida, por mais que esteja se afundando numa merda sem fim, como você não cansa de me dizer, eu não me preocupo. Eu tou me enterrando nas minhas dúvidas, nos meus sentimentos confusos e, no fundo, no fundo, eu não to nem ai pra isso. Os meus métodos são uma bagunça, mas os meus planos estão se realizando lentamente, e ninguém pode dizer que não está funcionando, no fim. As coisas vão se resolver em breve, eu sei. O que me aflige é que eu não sou crescida o bastante pra tomar conta de você assim, emocionalmente. Eu não sou mulher o bastante pra encarar a realidade. O meu mundo de fantasia caiu e eu estou perdida, mas eu vou me encontrar por aí, pode ter certeza. A vida não é fácil, mas a gente tem que encontrar umas alegrias perdidas em lugares rotineiros. Deixa eu fazer minhas escolhas, deixa... Agora é a parte que você solta da minha mão porque eu preciso voar sozinha. A seu ver, a minha gratidão tem a obrigação de ser uma corrente que me amarra a você. Ela não é. E se fosse, eu não a chamaria de gratidão. Você continua insistindo que ela não existe em mim, mas existe, sim, só que pra mim, ela assume outro formato. Gratidão é inanimado. Gratidão não se expressa em cada conversa banal de nossas vidas. Rotineiramente, não existe o costume de expressar amores imensos. Não existe a hora do abraço e nem a felicidade constante. A gratidão se esconde, talvez, mas ela existe, acredite. Se ela não existisse, eu não estaria aqui, esperando por um final feliz, mesmo sabendo que a história é verídica. Em histórias verídicas não existe o felizes para sempre. Eu ainda quero ir embora, mas eu não vou lhe deixar. Aqui está a minha gratidão. Ela é tímida, pouco explícita, e, talvez, muito pequena para as suas expectativas. Eu lhe devo muito pelo que eu sou, mas eu não tenho a obrigação de ser pelo que eu lhe devo. Não descarregue nas minhas costas o peso de ser o que você não foi. A sua vida não acabou, é só o brilho da sua esperança que está um pouco apagado. Você é muito boa em tudo o que faz. Você sempre se torna boa em qualquer coisa que faça porque o que você gosta mesmo de fazer é de ser boa. Eu sou uma obra sua, mas o seu perfeccionismo não pode se aplicar a mim. Eu gosto de ser humana, de ter defeitos, de fazer merda e de não saber o que fazer, quase sempre. Coloque a mão na massa, dê a cara à tapa – você é boa, você consegue. Recupere a sua esperança. Eu gostaria de poder ir buscar toda a felicidade e esperança que lhe falta pra lhe dar de presente, mas eu não sei como fazer isso e não quero, também. É uma tarefa que tem que ser sua! Desculpe-me pelo que falta em mim e pelo meu excesso de imperfeição. Desculpe-me por preferir artes a matemática e por não seguir a risca o plano que você traçou pra mim. Há agora uma barreira pros sentimentos de mim para você (me desculpe por essa fraqueza, também) e ela se fortaleceu com o tempo que nós não reparamos passando, mas ainda existe o amor, lá no fundo. Como um cenário, que a gente só repara se falta. O nosso amor não é a peça, nem é ator principal, mas sempre está lá. Nós duas sabemos disso. É o amor mais complicado do mundo e o mais simples. Ele sempre existe, não importa. Deixemos as coisas como são, mais cedo ou mais tarde a gente se ajeita. A minha tristeza vai se desvencilhar de você e a sua felicidade, de mim. Seremos completas, então.

VII. Eu tenho me privado de dizer. O combinado é muito claro. Não estou cobrando isso de você, mas de mim. Eu sou assim: eu falo de sentimentos. Eu tento explicar, eu sou explícita, eu não sei esconder, eu escrevo, eu falo e eu não vou me cobrar discrição agora. Eu bem que tentei, mas cansei já. Eu não vou me mudar por ninguém. Por mais amor que haja é sempre preciso lembrar me ver antes. Muito bem. É complicado, mas sigo tentando me permitir. Não é fácil pra ninguém. Eu não sou nem um pouco como nos seus sonhos mais lindos, mas eu tenho a vantagem de ser muito real e de gostar do que você é de verdade. Eu fujo do padrão das suas constantes desilusões em vários sentidos e é, realmente, um bom motivo pra você fugir. O meu maior defeito é gostar de você. Tudo o que é desconhecido causa medo, mas não espere até eu ir embora (de novo) pra sentir falta dele e decidir aceitá-lo.

25 agosto 2009

Maiúsculas Alegorizantes [em demasia]

Não sei escrever tristezas. Alegrias me são explosões, enquanto as tristezas guardo ao fundo da alma, talvez por não querer encontrá-las. Sobra-me uma fresta por onde espio e uma quase curiosidade. Curiosidade de autoconhecimento, de interpretação de uma parte de mim que eu não sei o que é. Eita, adolescência - não sei mais viver devagar, não sei mais esperar, não sei sentar, quieta e constante, pra pensar no futuro. Talvez minha Vanguarda seja mesmo o Futurismo. E olha que é, entre todas, a única que não me agrada. Falta romantismo, falta adjetivação e sobra ação, sobram verbos, faltam significados. Meu modo de ação futurista me mói de ansiedade, me tira a consciência, me deixa sem liberdade. Onde está a liberdade? Onde é que ela se esconde? Onde eu estou? São sentimentos tão clichês, duvidas tão comuns que... Como dizer? Como confessar sentimentos tão primários, tão superficiais? Como dizer que eu sinto tão profundamente algo tão mediano? Sim. Qual é a dúvida, afinal? Existem dúvidas até sobre tê-las. Qual é a base? Em que se apoiar? Em quem? Qual é a dúvida, afinal? Amontoam-se as perguntas e não há o que fazer com elas. Ficam jogadas, suspensas, o ar vai ficando pesado e a respiração cada vez mais lenta. Lenta, sim. Na minha ansiedade por acontecimentos, nada mais flui. O tempo vai parando, os minutos teimam. Cada palavra assume um significado pesado e diferente que não lhe cabe. Tudo o que eu preciso fazer, tudo o que eu preciso ser – me curva as costas. Um peso que eu não sei carregar, uma força que me falta. Também os fatos se amontoam. Eu os quis? Eu os fiz? Eu os causei? A minha justiça está farta, e de farta tornou-se falha – já não sei discernir. Quanto é amor e quanto é hipérbole? Quanto é justo? Quanto mostrar e quanto esconder? Esconder de quem? Mostrar pra quem? Quanto é beleza e quanto é alegria? É que o mundo era sempre tão lindo aos meus olhos, agora parece que sempre há algo que lhe arranca as cores, que me dá ânsia. Eu não me encontro mais na Arte. Arte, pra mim, sempre teve um quê de felicidade, mas já não o encontro. Por vezes, minha antiga felicidade me envolve, tão quente, tão esperta, tão minha, mas nem mais ela pode ser estável. Não é por isso que eu mudei? Eu costumava ser ininterruptamente feliz, eu costumava viver de forma desnecessariamente feliz. Agora, a felicidade me atinge em alguns momentos e, em outros, eu a deixo escapar entre os meus dedos. Há uma inconformidade que vem de dentro, uma ansiedade burra que me causa dores de cabeça. Eu preciso andar. Sair andando, sair daqui, sair de todos os lugares porque estar me dá náuseas. A sensação de ver o tempo passar é uma névoa aos olhos, me falta a concentração, me falta a vista (e os meus óculos, onde estão em horas como esta?), me dói a cabeça, como sempre.

Ah, inefável Desejo! Sai de mim, que não lhe quero ter. Você me consome e me acalanta, bate e assopra e eu não me desvencilho de suas mazelas. Mas não... Ai, fica... Fica sim, que lhe preciso. Porque é em quem me apóio antes de dormir quando me perco tanto desse jeito. Mas o que é você, meu mal? É a causa de meu sofrimento? O torpor de minha antiga alegria? Ou é minha Arte? Meu bem? Meu sorriso? Pra que lhe mantenho por perto? Pra que não lhe aproximo nem lhe afasto? A distância vital que mantemos, já não sei se é de bom grado que permaneça. E se eu lhe aceitar de volta, completamente? Quais decepções me esperarão pelo caminho? E se eu cuspir na sua cara, Desejo? E se eu lhe reprimir, lhe repudiar, se eu lhe negar três vezes? Depois passarei a vida jurando pulinhos a São Longuinho para lhe encontrar ou agradecerei à minha coragem de ter lhe mostrado a saída eternamente? Ah, meus sentimentos, bem eu sei de suas purezas. Não esperem tanto de mim, por favor. Tenho-lhes um afeto profundo, acreditem, mas não tenho conseguido senti-los todos. Não tenho conseguido, me perdoem. Não vão embora, por favor. Acreditem em minha força só mais um pouco. Eu vou erguer a cabeça e vou enfrentá-los. Um dia, queridos, vocês serão todos tão intensos novamente. Prometo que tentarei não demorar. Eita, vida – que cenas ainda guarda pra minha peça? Que personagens serão os principais?

Vem cá, Amor, você precisa de um abraço: eu sei que não estou lhe tratando muito bem; ando lhe dando umas broncas, ando lhe censurando, ando lhe dando muita corda, pouco significado. Fica, Amor, fica que a Fé lhe ajuda. Pode ficar também, Dúvida – eu reconheço tudo o que você faz por mim, mas sabe? A Tristeza não é uma boa influência pra você, deixa ela pra lá. Volta a ser BFF do Desejo. Ele é meio estranho mesmo, eu admito, mas você gostava dele tanto... Eu também não tenho certeza se o quero, sabe? Mas não quero que ele deixe de andar com a gente, mano. Vamos dar outra chance pra ele, quem sabe dessa vez ele não traz a Alegria de volta de vez? Ouvi dizer que os dois são super amigos.

16 agosto 2009

Don't you think?

Well life has a funny way of sneaking up on you
And life has a funny, funny way of helping you out
Helping you out

(Alanis)