11 abril 2012

Antes e depois

Todos precisam de um caderninho pra anotar coisas - aquele pensamento que por um segundo quase foge da mente, aquela imagem que repentinamente se forma frente aos olhos. É um tênue momento entre perder ou guardar tudo isso para outros momentos, em que eles possam grudar na memória com mais firmeza.

Você diz que eu sempre fujo das coisas, mas acho que não gosto de fugas - pelo menos das físicas. A ausência é mais forte. A ausência é a violência mais bruta que você pode me dar - uma ferida neutra, sem cor, que causa uma dor que não age, paraliza. Estar sozinho é um processo.

Nestes (e nos outros) momentos muita coisa acontece. São gotas que batem nos telhados, vozes que conversam na rua, o som da geladeira simplesmente gelando, barulhos que ecoam na minha cabeça, me dão vontade de mijar. Frio na barriga: úmido.

A música segue tocando, como se nada tivesse acontecido. É, eu realmente precisava quebrar alguma coisa. Imaginária ou tocável, inteira ela não cabia em mim mais. Talvez eu tenha emagrecido um pouco mais. Faria diferença?

É como a Leila dizia: cuidado com a subjetividade... mas eu não soube fugir. E olha que neste momento uma fugazinha não faria mal a ninguém.

Quer saber? Desta vez eu vou ficar. Vou esperar você voltar, pra eu provar pra mim mesma (ou pra nós duas) que você é capaz disso sozinha. Que você vai escolher sem que eu tenha que pedir.

Enquanto isso, reações químicas continuando agindo no meu corpo. Mas quando você retorna, algo fica diferente. Um diferente igual. O quê?

03 agosto 2011

Mãe, eu sou mulher.

Eu tenho medo que você seja agredida na rua.

A gente ouve as famílias discursarem sobre a homofobia quando descobrem algum homossexual entre eles. Bom, se você quiser ser lésbica, seja discreta, seja silenciosa.

Eu tenho uma má notícia pra vocês: eu sou mulher. Eu sou agredida na rua todos os dias. Eu sou agredida por homens que dizem coisas chulas se referem ao meu corpo e à minha beleza. Eu não estou à disposição deles, mas isso não importa, as mulheres não têm o direito de andarem na rua sem serem perturbadas. Todos os dias, todas as ruas, todos os segundos de nossas míseras vidas. São homens que nos encoxam nos ônibus, que postam ofensas misóginas sobre nós em todas as redes sociais, que desejam os nossos corpos, que querem comer os nossos ânus independente do prazer que sintamos ou não, sem preliminares, sem flores, sem ligações no dia seguinte, homens que estão a todo instante a um passo de nos estuprarem. São homens e mulheres que culpam nossa forma de nos vestir pelos assédios cometidos. São maridos que se sentem à vontade para bater em suas esposas. São homens violentos, nojentos, sujos e pervertidos que estão a solta em todas as cidades, em todos os lugares. Eles querem sugar as nossas almas e destruir os nossos corpos.

Eu não sei onde eles estão, se se escondem por entre as sujeiras suburbanas ou se estão nos cafés, sentados e quentes, observando o movimento. Por vezes eu penso que estes homens estão enfurnados dentro da cabeça de cada um dos homens desta sociedade hipócrita. Uns mais, outros menos, mas eu quero estar longe de todos para não correr riscos. Eu tenho medo que eles apareçam, que a qualquer momento qualquer homem comum comece a pensar com a cabeça do pau e deixe emergir toda a doença social deste patriarcado abominável. Eu não quero estar perto deles porque essa doença está em todos os lugares, em todos os cantos, em todas as cabeças e se eu me sentir agredida e denunciar algo, inevitavelmente será minha culpa, pela minha beleza dos vinte anos, pelo meu corpo tão dentro dos padrões masculinos passíveis de ser fodidos. But I was born this way!

Portanto, vocês deveriam ter ficado amedrontados quando o médico disse que era uma menina. Ser gay é imensamente mais fácil que ser mulher, acredite. A homofobia é polêmica, mas está sendo discutida há anos. A misoginia não está em discussão. Não tenham medo - eu sou lésbica para estar longe do que mais me agride.

20 abril 2011

Conceitos obsoletos de poética cotidiana

Espalha-se pra todos os lados... Um pedaço de cada coisa numa colcha infinita de retalhos hoterogêneos. Arte de verdade é entrega, mas arte de mentira todos somos um pouco. E quem nega? Qual é a verdade universal? A resposta final? Atire quantas pedras quiser quem acredita nas certezas absolutas, pois eu não acredito nem sequer na certeza da rigidez das pedras. Eu entendo muito bem o conceito e a aplicação da abstração, mas quem vai me impedir de procurar pequenos animais e formas entre toda essa tinta?

Reflita, mas prive-se de enlouquecer. Às altas horas da madrugada simplesmente esqueça. A melhor parte é ver a noite chover seu céu escuro, desligar-se das conexões possíveis e esquentar-se junto a um outro corpo macio e nu, tão igual. Se arte é entregar-se, quem atirará a primeira pedra?

21 fevereiro 2011

Afinal, ser diferente é tão clichê

Sem aviso prévio nem acerto de contas, a vida me demitiu do que eu era e me jogou na cara apenas uma certeza: eu já não sou mais tão criança a ponto de saber tudo.

É estranho como num certo ponto o sentido das coisas se dissolve. Tantas respostas na ponta da língua e opiniões formadas que, repentinamente, eu já não sei mais se tenho certeza do que penso. Começo a responder não sei, a ficar calada. É como comê-las, alimentar-se de todas as suas mais profundas dúvidas e incertezas. Como se as respostas que eu antes tinha não aguentassem mais a acidez dentro da minha boca. E é isso que é crescer? Refutar minhas próprias certezas e desafiar minhas próprias convicções?

Inevitavelmente, as contradições me afligem. É esperteza ou burrice se aprofundar? Será que existe um nível seguro para consumo dessas substâncias? Será que são toxinas ou remédios? Percebe-se a pureza se esvaindo, as sentenças exclamativas dando lugar a centenas de interrogações. Sem resposta. A responsabilidade de carregar-se, de erguer-se, de manter-se em pé que nos empurra, quase nos derruba e nos mantem andando, meio bambos. Somos todos ou sou só eu? Não existe nada único neste mundo vasto, mas... é comum ou é raro se sentir assim? Estão todos comigo? Escondendo as palavras em baixo da língua por não ter certeza da recíproca da humanidade quanto a isso ou simplesmente por não saber muito bem quais palavras usar pra descrever?

E se é clichê ou não, pouco importa, me entrego a este sentimento sem pudor. Eu não defino mais o certo como certo como antes eu sabia diferenciar tão bem. Neste ponto os sentimentos são como os filmes - assistir só os bons sem ter a experiência de assistir os ruins fará de nós tão alienados quanto assistir somente os ruins. Eu me disponho a não classificar e sentir tudo isso, por mais chulo ou raro que seja.

Eu me entrego.
E isso não significa necessariamente que eu esteja desistindo.

28 outubro 2010

3:38

Na calada da noite, um táxi pára na frente de um alto prédio de esquina. A moça conta as moedas e desce, sem chaves, cheirando a festa, equilibrando sua desequilibrada beleza em cima de uma sandália.

Interrompendo meu conturbado sono de cada dia nos dai hoje, a campainha toca, altas horas da madrugada, meu imponente e pontual emprego me esperando a espreita algumas horas adiante. Pelo vidro da porta, vejo uma silhueta escorada na parede. A maçaneta da minha casa exige alguma força para girar, a imagem então me atingiu como um todo - o emaranhado de cabelos vermelho escuro, os olhos pintados, um curto vestido preto, sem descer do salto 12, um tanto cambaleante e com olhos sonolentos, todo aquele brilho e luxúria, um tanto decadence queen de final de noite, mas ainda brilhando aquele desejo quase impuro com que eu sonhava... Uma sombra azulada em cima dos marcados e marcantes olhos marrons iluminava um olhar de carência, de saudade. Veio até mim aquele olhar para que juntos os curássemos.

Deitou-se em minha cama, com um sutiã preto e uma calcinha colorida. Deixou-me sentir sua maciez, afundar minhas mágoas em seu colo, abraçá-la com ternura. Deixou que rolassem as lágrimas que contia e desabafamos angústias irremediáveis, inflexíveis.

Ah, minha menina, quantas coisas cabem em você, não é mesmo? Suas roupas coloridas escondem uma mulher aí dentro, uma mulher de salto 12 e cabelos vermelhos. Eu ainda vou levar um bom tempo pra conhecer todas as suas versões, mas eu quero todas. Eu quero todos os seus lados frouxos e soltos para existirem e se libertarem ao meu lado.

Assim como ontem, todas as vez quando fechamos as portas, meu bem, a sua presença perfuma o ar. Damos para as paredes a liberdade de manter do lado de fora todos os males que o mundo oferece. Dentro, só há o amor - vazando pelas frestas.

07 outubro 2010

Indolor sentimento incolor

Dias como este reerguem monstros há tanto adormecidos. Você pode até achar que eu não tenho motivos pra estar irritada, pra ficar triste, pra ficar brava, mas eu sinto que naquelas malas virão todos os meus medos guardados, embrulhados pra presente. Quantas e quantas vezes eu estive feliz e fui obrigada a chorar, sabe? Você não tem idéia. Ela queria que eu limpasse o sangue, mas eu estava feliz, eu não queria limpar. Eu não sou uma boa pessoa, sabe? Porque eu não limpei. Você sabe e eu sei porque isso tudo aconteceu. E são estes mesmos motivos que me assombram... e agora o sangue é meu. Agora é meu sangue, minha carne e meu coração completamente envolvidos e eu não estou mais disposta a desistir como antes. Agora eu estou com medo. Não que antes não estivesse, mas agora eu estou vulnerável. Eu não me importo que me afetem, mas ficarei muito ferida se afetarem você. Ao mesmo tempo que eu penso que tenho que fazer alguma coisa, penso que vou ficar bem quietinha no meu canto, não vou sair de casa não, quem sabe assim eu te privo de sofrimentos desnecessários, de palavras desnecessárias. Eu estou em dúvida. Eu estou com medo e estou em dúvida. Eu sou patética. Como eu posso estar tão certa de algo tão incerto?

Corra, sangue, corra. Fuja pr'algum lugar bem longe daqui onde você possa encontrar calor n'alguma outra coisa, mas vai ser bem rápido, como uma injeção...

Eu sei que você já conhece essa dorzinha.
Só dói um pouquinho.
E (quase) sempre passa.

04 agosto 2010

Being good is just so fucking boring

Apesar de reconhecer o tremendo clichê com que meus pensamentos se deparam aqui e agora, seguirei botando a culpa na sociedade para os males do mundo porque eu não nasci pra viver nos moldes que criaram pra mim. Eu sou o sair do quadro, eu sou o outdoor exposto à chuva, que se desgasta, mas põe a cara a tapa, mostra seu recado pra um amontoado de gente. Eu não tenho a pretensão de saber discutir, de convencer, de alarmar, apenas de mostrar, de exibir um ponto material, bem localizado, sem dimensões. Escrevo pra me descobrir, desenho pra me encontrar. Dos lares sou eu o ponto de fuga. E se não há a quem culpar, como deixar de lado fraudes numa sociedade que acredita no que outros homens inventaram antes de acreditar no que há dentro de si próprios? Como colocar minha fé numa sociedade que se priva de felicidades por motivos que desconhece? Que rotula tudo o que não se considera parte e que não discute nem questiona ao herdar princípios?

Cara sociedade, já que eu não posso sair do jogo, vou me auto-entitular café com leite. E vou acreditar, mesmo que sozinha. Eu não acredito em você. Eu não confio em você. Eu não quero lhe ouvir. Permaneça quadrada e igual, ignore que o mundo muda e siga seu caminho sem alarde, como sempre, na opacidade da rotina dos bons. Eu manterei a maior distância possível de você.

01 agosto 2010

Põe tudo no crédito

Dentre as inconsequentes hipérboles sobre as quais se constituem meu ser e todo o amontoado de sentimentos que nele se desfiguram, esta é a mais incompreensível. De incompreensão me sobram inúmeras arestas não podadas, mas esta é justamente a mais aguda. Tudo o que venho sentindo sem aparente razão me confirma o fato que me é de obviedade estúpida - eu desaprendi a viver sem a sua presença. Odeio a estabilidade dos cobertores ao não cair no meio da noite pelos lados da cama e não me preocupo com o gradiente lindo do céu se não refletido em seus olhos. Eu sinto o cheiro do seu gosto no vento frio que me gela a alma ao longo da Almirante Barroso e me falta matéria entre os dedos, sua mão, seu corpo pra eu apertar. Minha previsibilidade me cansa, mas hoje eu não consegui estar presente no meu próprio dia, não estive na sala de estar. Enquanto embrulha meu estômago, tenta expelir essas entranhas que eu desconheço. São minhas? É por mim mesma todo esse esforço aqui dentro pro meu sangue continuar correndo? Você está no lugar errado, de qualquer maneira - hoje eu nem sequer estou, o pouco que eu sou neste momento me poupo, e pra mim, pra seguir em frente até a hora de voltar a viver de verdade.