08 julho 2009

Inexpressão de inexistência

Eu não sei ser. Fazer é fácil, eu faço, falo, ajo; mas o que eu diria sobre mim? Supostamente, dizer é fácil, mas eu me perco nas entrelinhas do fazer fazer fazer e acabo não guardando pra mim mesma muitas palavras. E olha que eu sou uma grande fã das palavras - eu as cultivo, as cultuo; mas as disperdiço. Eu me entrego, eu não nego, eu vou de corpo inteiro, compartilho minha alma toda, o coração na boca, na mão. Quais palavras restaram pra mim?

Dissertar ou narrar sentimentos não os enfraquece. Eu acreditava que poderia liberá-los de mim dizendo sobre eles tudo o que fosse possível, mas me enganei - quanto mais palavras eles possuem, mais veracidade, mais força, mais garra. E quanto a mim? Eu, que não possuo palavras? Em volta dos meus verbos não se organizam frases. Nos dias de hoje, o que não é documentado simplesmente não existe. Eu posso existir? Sem palavras, sem frases, sem nada? Serei uma gravura, uma cor? O verbo ser me cabe? Dêem-me esta palavra, só esta, ao menos.

Os sentimentos consomem minhas palavras como um imenso buraco negro: quanto mais palavras eu conheça, mais ele as quer. Eu as entrego, com o coração aberto, sem duvidar de suas cruéis intenções destrutivas, mas quando me faltam as palavras, o frio da inexistência me toca a pele, sensibilizando nervos do meu corpo que eu nem desconfiava que existissem. E existem? Ou não?

Não ser escrita é uma sensação literária de uma tendência ultra romântica de morrer de amor. Na realidade, não é morte, o infeliz há de se contentar em continuar vivo - sobrevivendo como um ser inanimado, sem palavras, sem verbos, sem adjetivos e sem onomatopéias. Inexpressivo.

Como me deixei levar?
J
usto eu, que sempre preferi os naturalistas...

2 comentários:

ester disse...

eu amo você e suas palavras carambola.

Mariana disse...

Eu acho que você é. Talvez eu já tenha te dito que te acho muito intensa. E nao sei bem se esse seu texto se encaixa nisso. Mas pra mim você sente tudo o que é para ser sentindo, e assim, você consegue ser tudo o que pode ser. E talvez essa seja uma das razoes pela qual você ainda me encanta. Você nao deixa de ser nunca, e você é muito. Você é intensa e encantada. E minha veterana preferida (junto com a Má e com a Pati, claro).

<3